RIO - Mudam os repertórios, mudam os locais dos eventos, mudam os artistas no palco, mas uma coisa não muda no Projeto Aquarius: ao final dos espetáculos, todos os envolvidos na produção choram. A emoção está ligada à superação de dificuldades inerentes a um evento de grandes proporções, ainda mais ao ar livre (rezar para que não chova no dia é outra prática imutável), à consciência da importância de um projeto que oferece música da melhor qualidade a dezenas de milhares de espectadores e, por fim, à intimidade que existe entre as pessoas. Muitas estão no projeto há décadas. Elas se chamam de "família Aquarius".
Luciano Costa, por exemplo, nasceu com o projeto. Tem 40 anos e, no carrinho de bebê, foi levado a um concerto pela mãe, Angela Azevedo, hoje diretora geral do Aquarius. Luciano perdeu o pai cedo e foi criado por Péricles de Barros, criador da série e segundo marido de Angela. Depois de ser militar e analista de sistema, começou em 1996 a trabalhar em produção. Hoje, é o diretor de produção do Aquarius.
- Eu gostava do ritmo do meu pai, como eu chamo o Péricles. Cresci no meio e sempre quis fazer parte disso - conta ele, cujas duas filhas, de 18 e 16 anos, já estão colaborando na organização dos espetáculos.
Os três filhos de Péricles acompanham o Aquarius desde pequenos. Mas não se tornaram aficionados por música clássica como o pai. Isto não significa, no entanto, que testemunhar o envolvimento de Péricles com os eventos não tenha influenciado suas escolhas.
- Eu via meu pai escrevendo os textos, discutindo os programas com os regentes, e me tornei roteirista - diz Péricles de Barros Filho, de 46 anos, que trabalha na TV Globo. - O Aquarius sempre teve ingredientes de espetáculo. Nunca abriu mão do entretenimento.
- Fui apresentado ao Rick Wakeman em 1975 e, na época, isso me marcou, porque aqueles teclados me impressionavam. O punk ainda não tinha chegado ao Brasil - lembra Mauricio Barros, de 48 anos, que participou do Aquarius em 1984 como tecladista do Barão Vermelho e cujo irmão mais novo, Marcio, é diretor de palco de Marisa Monte.
Foi na apresentação de 1984 na Praça da Apoteose que Valmor Neves, o Bolinho, ingressou na "família Aquarius". Ele era iluminador do Barão e passou a trabalhar também na série, dividindo o tempo com shows de Gilberto Gil, Rita Lee, Djavan e muitos outros.
- Mas o Aquarius é o evento mais importante do ano para mim. Amo fazer, e são sempre as mesmas pessoas, que se entendem muito bem - afirma Bolinho, de 54 anos.
O engenheiro de som Fernando Sholl foi admitido na família com 19 anos, em 1991. Era assistente de Antônio Carlos Fernandes Roldão, que lhe ensinou tudo, segundo diz. Tornou-se um dos principais especialistas do país em sonorização de grandes eventos, amparado em experiências como a de microfonar uma orquestra numa praia de forma que o barulho do mar não ofusque o som da música.
- Hoje em dia, são 140 microfones para reproduzir bem o que sai dos instrumentos. Se não, Netuno não deixa - brinca ele, outro a classificar o Aquarius como seu trabalho mais importante em qualquer ano. - É de coração, familiar.
Sholl se tornou sócio de Luciano Costa numa empresa de engenharia de som. O filho de Angela Azevedo é fascinado por inovações tecnológicas e já criou dispositivos como o de pôr um homem de 1,50m pendurado no teto do palco para filmar os bailarinos. Ele se orgulha de ter montado, em 2006, o maior palco erguido numa praia: 76 metros de largura por 32 de profundidade, com 71 de boca de cena para a "8ª Sinfonia de Mahler", reunindo 879 pessoas no palco, incluindo duas orquestras e coros.
Mas nenhuma das muitas conquistas tecnológicas obtidas pela "família Aquarius" ao longo destas quatro décadas teria sido possível sem Amilton Gonçalves. Ele era funcionário do GLOBO, nos anos 1970, quando foi convocado por Péricles para ajudá-lo em todos os grandes eventos do jornal. Tornou-se braço direito do gerente de promoções e um expert em logística de superproduções. Montagem e desmontagem de palcos, organização do espaço da plateia, tudo está sob o seu comando até hoje.
- Se o Amilton não estiver, até as cadeiras do público ficam tortas. E ele é o primeiro a entrar e o último a sair - ressalta Luciano.
- Tudo o que eu tenho agradeço ao seu Péricles. E adoro trabalhar no Aquarius. Também é a minha família - diz Amilton, de 65 anos.
Ao se aposentar, em 2001, ele criou sua própria empresa, a Amiltinhos, referência a como eram chamados os trabalhadores que contratava. O Amiltinho principal é seu filho Marcos Gonçalves, de 41, que frequenta os concertos do Aquarius desde criança e há 16 anos trabalha com o pai no projeto. Eduardo, genro de Amilton, também atua na produção. Moradores de Nova Iguaçu, eles dão trabalho a cerca de 200 pessoas num evento como o que acontece neste fim de semana.

