ATIVIDADES DE AMIGOS

    Steven Soderbergh troca cinema por período sabático

    RIO - Nada tira da cabeça de Steven Soderbergh a ideia de que ele precisa sair de cena e curtir um período sabático, sem data para terminar. Mas a opinião do cineasta americano de 49 anos não muda nem diante do fenômeno de bilheteria que se tornou seu filme mais recente, "Magic Mike". Previsto para chegar ao Brasil no dia 2 de novembro, após ter lotado as sessões em que foi exibido no Festival do Rio, o drama sobre o stripper Mike (Channing Tatum), em seu cotidiano no clube para mulheres dirigido por Dallas (Matthew McConaughey), é considerado o filme de maior rentabilidade, em custo e benefício, do ano. Sua arrecadação é 22 vezes maior do que seu custo de produção. Orçado em US$ 7 milhões, já faturou US$ 154,7 milhões. O longa chega cercado pela expectativa de que possa render indicações ao Oscar para McConaughey e para o diretor. Mas não foi fácil tirar o projeto do papel, conforme conta, por telefone ao GLOBO, o cineasta, premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1989 por "Sexo, mentiras e videotape" e com o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000). Num papo bem-humorado, ele explica como um filme sobre nudez masculina assustou estúdios, fala de seu projeto para a HBO sobre o pianista gay Liberace e justifica a vontade de parar de filmar.

    A ideia de um período sabático não muda após as cifras de "Magic Mike"?

    Essa opção não passa por números. Preciso de uma pausa. Nos últimos 12 meses, rodei três longas-metragens. Fiz "Magic Mike", o thriller "Side effects", com Channing Tatum, e o telefilme "Behind the Candelabra", com Michael Douglas. Preciso de tempo para pensar, para voltar a ser apenas um espectador e ver o que deixei passar por compromissos de filmagem. Quero terminar um livro sobre cinema, me dedicar à fotografia e dirigir peças. Se tiver que voltar ao audiovisual será pela TV.

    Isso é fruto de "Behind the Candelabra", em que Michael Douglas vive Liberace e Matt Damon interpreta o namorado do pianista, Scott Thorson? Há planos de levá-lo ao cinema?

    Há sim, mas fora dos EUA. Aqui é um projeto da HBO, que entrou com o dinheiro necessário depois que ouvimos "não" de todos os estúdios, sob a alegação de que era "um filme gay demais".

    E como explica o fenômeno popular de "Magic Mike"?

    Um projeto que tinha um astro em ascensão, Channing Tatum, e um campeão de bilheteria, Matthew McConaughey, tirando a roupa parecia comercialmente instigante, sob o meu ponto de vista. Mas sabe quanto tempo levei para financiar o filme? Onze anos. Como os custos para se lançar um filme estão cada vez maiores, os estúdios estão cada vez mais conservadores, acreditando que apenas superespetáculos podem tirar as pessoas de casa. E um drama social sobre strippers masculinos não se encaixava nas expectativas.

    E por que não desistiu?

    Insisti que uma ideia corajosa poderia render tanto quanto um superespetáculo. Só não imaginava que renderia tanto (o filme já tem continuação à vista, com direção de Channing Tatum). No começo, nosso público era de mulheres e gays. Conforme o boca a boca foi se formando, e as pessoas foram compartilhando a certeza de que não era um filme homoerótico, e sim um drama sobre escolhas erradas, os homens héteros começaram a procurar o longa. E estouramos. Minha maior vitória foi conseguir o logo da Warner, que lançou "Barry Lyndon", de Kubrick, e "Um dia de cão", de Sidney Lumet, antes da sequência inicial, com Matthew no palco de um clube para mulheres.

    Como o senhor avalia a definição da crítica, que chamou "Magic Mike" de "Os embalos de sábado à noite" do século XXI?

    Pensamos muito em "Os embalos de sábado à noite" ao conceber o projeto. Os dois filmes falam de jovens lutando para entender como o futuro será e têm um contexto social forte e protagonistas ligados à classe operária. "Os embalos..." é um dos filmes americanos mais sombrios que já vi. Um marco dos anos 1970. Fiquei surpreso ao saber que plateias mais jovens não o conhecem.

    As plateias estão se desligando de filmes mais adultos?

    Comecei a pensar nisso com meu filme anterior, "A toda prova". Eu o fiz por estar cansado de ver o cinema tratar a violência como pornografia. Mas o público não compartilhou da minha angústia. Vários fatores pesam no conservadorismo que hoje atinge também o público. Além da questão econômica e da evolução da teledramaturgia, há uma tendência nos EUA, ligada ao 11 de Setembro, de apostar no escapismo. Uma sensação de que as pessoas vão ao cinema para se despreocuparem.

    Daí o sucesso dos filmes de super-herói, escapistas por natureza?

    Esse é um gênero com o qual não teria intimidade. Antes, eu vinha perseguindo a ideia de fazer um filme de horror. Mas nada do que escrevi tinha uma desculpa convincente para os elementos sobrenaturais. Mesmo assim, o último filme que tenho para lançar, "Side effects", possui elementos de thriller psicológico. É a história de uma mulher, vivida por Rooney Mara, que altera sua realidade ao se tornar dependente de ansiolíticos.

    O Festival do Rio também exibiu seu documentário "Spalding Gray - E tudo vai bem" (ele tem sessão nesta terça-feira, às 19h, na repescagem do festival, no Odeon). Como esse projeto, sobre o ator Spalding Gray, que revolucionou a cena teatral americana, se encaixa na sua obra recente?

    A viúva de Spalding me procurou, pois fomos muito amigos. Esse documentário consumiu três anos de trabalho. Mas eu não quis filmar nada novo. Não liguei a câmera. Spalding era um falador. Falava de tudo. Então, reuni 90 horas de material de arquivo dele falando e reduzi a 90 minutos.

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