RIO - Di Cavalcanti pintou "Samba" em 1925, logo após a volta de sua primeira viagem à Europa. O artista trabalhou como jornalista por dois anos em Paris. Lá, frequentou a Academia Ranson, visitou museus e exposições conheceu Picasso, Léger e Matisse. Viajou à Itália para ver Tiziano, Michelangelo e Da Vinci.
Esse contato com a vanguarda europeia e com os grandes mestres do passado foi fundamental para o artista, que voltou renovado e consciente do que pretendia buscar: "Paris pôs uma marca na minha inteligência. Foi como criar em mim uma nova natureza, e o meu amor à Europa transformou meu amor à vida em amor a tudo que é civilizado. E como civilizado comecei a conhecer minha terra".
Di Cavalcanti foi o primeiro artista brasileiro a trazer para a pintura as bordas da cidade, as pessoas comuns, os suburbanos e a gente dos morros, onde nasceu o samba. O tema se espraia sobre sua obra nas "Meninas de Guaratinguetá", do acervo do Masp, nos painéis do Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, e em outras pinturas.
Em "Samba", Di Cavalcanti atinge um de seus ápices. É uma das obras mais importantes do nosso Modernismo. Nas cores vivas, na sensualidade langorosa das mulatas de peito nu, sem pudores, na ingenuidade dos sambistas, na musicalidade que emana da tela, no lirismo do povo brasileiro, no desenho dos morros que aparecem ao longe... Uma obra monumental, por seu tamanho e sua força.
Prefiro falar de "Samba" no presente, porque esta obra não irá nunca sair de nosso imaginário, porque estará sempre presente em nossas vidas.
Prefiro imaginá-la ao longe, mas sempre viva.
* Denise Mattar é curadora e crítica de arte

