ATIVIDADES DE AMIGOS

    Pedro Cardoso festeja 60 anos do Tablado com o improviso de 'Uãnuêi'

    RIO - Pedro Cardoso e sua mulher, a atriz Graziella Moretto, sentam-se, conversam e lancham na sala da casa que abriga O Tablado como se estivessem na sua própria. Logo manifestam uma sede de improviso e liberdade em cima do palco, ingredientes que não têm encontrado por aí, e que, após alguns esboços de cenas e horas de conversas íntimas, decidem trazer a público com a montagem de "Uãnuêi". Espetáculo totalmente improvisado, que pede à plateia a sugestão de um tema a ser encenado na hora, a peça será reinventada a cada sábado e domingo, a partir de hoje, às 20h30m, à medida que atores e espectadores se encontrem no palco do Tablado, que completa, em 2011, 60 anos.

    'A única norma é a liberdade'

    - O método usado pelo Tablado para ensinar alguém a se tornar um ator é o improviso, e é por isso que este lugar está de pé há tanto tempo - diz Pedro. - O que me interessa no improviso é que ele é um tipo de teatro muito natural, antigo, mas que devolve a totalidade da autoria do espetáculo aos atores. Meus textos sempre foram parcialmente escritos durante o improviso, e os meus espetáculos têm sempre 20% de espaço, que variam todos os dias de acordo com a circunstância do presente imediato. No teatro de improviso, a única norma para o ator é a liberdade. E aqui a liberdade da plateia também é possível, porque a peça não existe antes da escolha de uma palavra ou um tema para ser encenado. É o que o (diretor) Peter Brook diz no sentido de que o teatro é encontro.

    Graziella comenta:

    - Temos esse ímpeto de renovação diária. Vivemos por essa provocação, atraídos por esse desconhecido, essa descoberta que traz adrenalina e ao mesmo tempo naturalidade. É o prazer de olhar para a frente. O que importa é ir.

    O vocabulário que gira em sinônimos para termos como risco, desconhecido, adrenalina e excitação desvela, por fim, o prazer de se pôr em cena sem uma dramaturgia definida; uma liberdade que se opõe ao que Pedro classifica como "um tempo de grande opressão à individualidade".

    - O improviso é um movimento que tem vigor, porque a opressão sobre um ator pelo mercado de trabalho é muito grande, e isso o povo está longe de saber. Muitas vezes o ator tem de dizer um texto que ele não escolheu, e ainda é dirigido por uma pessoa com quem nem sempre tem afinidade. Há espetáculos em que os diretores deixam um assistente para vigiar se o ator está fazendo do jeito que ele marcou. Existe isso, esse campo de concentração de atores em cena. E é por isso que tem surgido tanto teatro em que o ator é o dono, onde ninguém vai mandar você tirar a roupa e dizer uma inverdade se você não quiser.

    A ideia surgiu após um convite para participar da apresentação do grupo português Os Improváveis, em julho passado, durante o Festival de Teatro da Língua Portuguesa (Festlip). Depois da experiência, Pedro e Graziella decidiram se valer do improviso para escrever as novas peças diante do público. Dividida em duas sessões de 30 minutos, "Uãnuêi" traz na primeira parte o desenvolvimento de um tema sugerido pela plateia.

    - Entre o tema e o nosso ato não há gap algum - diz Pedro. - Se alguém diz "escravidão", falamos disso. A palavra é a liberdade. Não saímos pré-determinados a fazer comédia e nem outra coisa. Eu me sinto naquela fase da vida em que você diz: "Vou para a Bahia!" E vai... E depois vai para Natal porque alguém falou outra coisa. Como não há pré-conceito dramatúrgico, a dramaturgia fica muito semelhante à própria vida.

    Na segunda metade, o improviso se desenvolve a partir de cenas já esboçadas. Então, temas como a pornografia disfarçada, a crise da verdade, o machismo, a violência e outros surgem para revelar ao público as inquietações que permeiam a vida de Pedro e Graziella.

    - É nada mais do que o resumo das nossas preocupações constantes - define ele.

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