ATIVIDADES DE AMIGOS

    Mostra sobre Nelson Rodrigues vai exibir lado 'outsider' do autor

    SÃO PAULO - Ao ler "Senhora dos afogados", de 1947, o poeta Manoel Bandeira perguntou a Nelson Rodrigues: "Por que você não escreve sobre pessoas normais?" "Só escrevo sobre pessoas normais", respondeu o criador do que chamava de "teatro desagradável". Devolver à obra de um outsider - que, contrariando uma de suas célebres frases, é hoje considerado, por unanimidade, um dos maiores dramaturgos brasileiros - sua capacidade de provocar estranheza é um dos objetivos da exposição "Ocupação Nelson Rodrigues", que será aberta ao público nesta quinta no Itaú Cultural, em São Paulo. Uma das filhas do autor, Maria Lucia Rodrigues, assina a curadoria da mostra, parte das comemorações do centenário de nascimento do escritor, que será apresentada no segundo semestre na Torre Malakoff, em Recife, cidade natal do autor falecido em 1980, no Rio.

    - Quis apresentar esse Nelson pouco conhecido, um outsider que via o mundo com olhos muito críticos e que passa despercebido por causa do folclore em torno de sua figura. Escolhi contar a história com as palavras dele, com o que escreveu em memórias, depoimentos e entrevistas - diz Maria Lucia, que, para dar voz à consciência do pai, garimpou por nove meses material inédito em acervos da família, na Biblioteca Nacional, na TV Cultura e na Cinemateca Brasileira.

    As origens do dramaturgo ganham destaque, revelando como a família, formada por intelectuais e artistas, e os primeiros anos de vida em Pernambuco foram fundamentais em sua formação. Ao assistir a uma entrevista de Nelson Rodrigues no programa "Vox Populi", da TV Cultura, dois anos antes de sua morte, Maria Lucia se surpreendeu ao ver que o sotaque pernambucano do pai resistiu ao tempo, apesar de ele só ter vivido quatro anos em Recife.

    - Foi um ambiente propício para o surgimento de um gênio, capaz de ter opinião e coragem para expressá-la. Nelson não queria seguidores. Queria dizer o que achava que deveria ser dito - diz a curadora.

    Reflexões sobre o jornalismo e a carpintaria do teatro também estão na exposição. Uma escrivaninha evoca as redações de jornais, com tablets que apresentam reportagens e crônicas de Nelson. Em meio a véus e espelhos d'àgua da cenografia de Valdy Lopes Nunes, projetores e monitores apresentam depoimentos e fotografias. Espalhados pelo espaço estão trechos extraídos de "Menina sem estrela", "O óbvio ululante" e "A cabra vadia". Mas o vasto material selecionado para a mostra não esconde sua carga afetiva.

    - Apesar de ter buscado um distanciamento crítico, tenho o olhar do afeto. Uma coisa é ler um livro escrito por seu pai, outra é fazer uma pesquisa, mergulhar em sua vida. Sabia pela convivência o quanto ele era afetuoso, doce e sensível. Mas só agora pude ver a pureza desse afeto, a dor de enxergar mais que os outros, o que ele sofreu por estar sempre contra a corrente - diz Maria Lucia, que teve sua filha, Sonia Muller, de 28 anos, como assistente de curadoria. - No processo, ela se descobriu muito mais parecida com o avô do que poderia imaginar.

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