ATIVIDADES DE AMIGOS

    Livro sobre a mãe de Barack Obama é lançado no Brasil

    NOVA YORK - Um menino negro de 9 anos, americano, desvia-se das pedras atiradas por crianças asiáticas. A cena incomoda os adultos, mas a mãe faz um gesto de displicente despreocupação e diz que ele está acostumado. O americaninho era ninguém menos que o hoje presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na época em que vivia com a mãe, Stanley Ann Dunhan, na Indonésia, um país em que as pessoas valorizam o branco da pele e desrespeitam os negros. A mãe estava longe de ser uma megera, mas certamente não entrava nos moldes da classe média dos anos 1960. Stanley Ann, que morreu em 1995, foi antropóloga, com trabalho de campo na ilha de Java, pioneira na defesa do microcrédito para reduzir a pobreza, mãe solteira de dois filhos multirraciais - um deles com o pai negro de Obama, numa época em que casamento entre brancos e negros era crime em 12 estados americanos. Janny Scott, repórter do "New York Times", ficou intrigada com esta mãe, que nos discursos do então candidato Obama só aparecia como uma "americana branca do Kansas". A reportagem que publicou teve enorme repercussão: quatro anos e 200 entrevistas depois, virou o livro "Uma mulher singular", que a Record acaba de lançar no Brasil. O último depoimento para a pesquisa foi de Barack Obama, já então ocupando a Casa Branca. Nesta entrevista ao GLOBO, a autora "psicanalisa" o atual candidato democrata à reeleição.

    A cena dos meninos jogando pedra em Obama é chocante. De alguma maneira Ann se sentia desconfortável com o filho negro?

    A filosofia de Ann é que raça não tem a menor importância. Ela foi capaz de se casar com um negro do Quênia e um indonésio, ser mãe solteira de dois filhos multirraciais, interessar-se sempre por pessoas de culturas diferentes: isso criou nela uma atitude de que cor não tem importância. Moreno, negro, ela não via nenhuma diferença e também não levava em conta como os americanos são conscientes das diferenças de raça. Ela quis criar o filho com esse sentimento, não o via como particularmente negro. Talvez porque tenha escolhido fazer política, Obama gravitou na comunidade afro-americana, não quis apagar as fronteiras étnicas como ela queria.

    Ela ficou irritada quando ele decidiu se assumir como negro...

    Uma das pessoas que trabalharam com ela contou que Ann teve um sentimento de perda quando ele passou a se identificar tão fortemente como afro-americano. É compreensível entender como ela se sentia. O Havaí, onde ela e seus pais moraram muito tempo, é um lugar multicultural. Como sempre trabalhou com pessoas de diferentes raças e culturas, imaginava que, para ele, raça teria uma importância reduzida. Poderia ser uma coisa que modificaria detalhes da sua vida, mas não determina o seu modo de vida.

    Como Obama fala da mãe?

    Depois de passar dois anos e meio tentando entender a mãe dele, tive 20 minutos com o presidente. Fiz oito perguntas. Foi impressionante: ele deixou claros os sentimentos contraditórios que tinha em relação a ela. Não tentou exagerar a relação com a mãe, me deixou entender que era complicado, que foi doloroso, quando era pequeno, viver mudando de casa e país. Contou que tinha tomado a decisão de não viver como sua mãe e de criar seus filhos de uma maneira completamente diferente. E atribui a ela sua decisão de entrar na vida pública.

    Depois de saber tudo sobre a mãe dele, a senhora resiste a "psicanalisar" o presidente quando o vê em ação?

    São misteriosas as influências deixadas pelos pais em nós. Fica claro que os valores dela moldaram a vida de Obama. A noção de que a coisa mais importante na sua vida é criar oportunidades para pessoas necessitadas. Também foi ela que deu a ele uma perspectiva global: nenhum outro presidente teve a experiência de ter 6 anos de idade e ser transplantado para Java, morar lá por quatro anos, viajar por aquela parte do globo, voltar para a faculdade nos Estados Unidos, morar com um paquistanês em Nova York, viajar de férias para o Paquistão. Também dá para ver a influência dela em coisas que ele escolhe não fazer. A sua decisão de fincar raízes em Chicago, de achar um lugar e se estabelecer, casar-se com uma mulher cuja família sempre viveu em Chicago. Michelle só se mudou na época da faculdade. E mais: a maneira que escolheu para criar os filhos, de ficarem todos juntos em um único lugar, nada de mudar o tempo todo, cada um morando numa parte do mundo. Estas decisões mostram uma rejeição ao estilo de vida que a mãe escolheu e ele não quer repetir.

    Ele se sente confortável em falar dessa mãe tão pouco convencional?

    Ele amava a mãe e a achava interessante, mas não é muito fácil para um político, especialmente ele, que é alvo constante da extrema direita, que o odeia por várias razões, a raça entre elas. A história desta mãe totalmente não convencional, globetrotter, antropóloga, com cabelo desgrenhado, vestida com roupas de batik e joias de prata é demais para os eleitores americanos. Acho que ele tem muitas perguntas sobre a maneira como foi criado.

    No livro, ele aparece como produto das ausências e presenças da mãe. Você concorda?

    Concordo completamente. Produto da sua presença acho que é a maneira como ela inculcou nele os seus valores, a maneira como ela o obrigou a conhecer o mundo, a disciplina, a ambição que tinha para ele. Quando Obama era criança, a mãe dizia que ele poderia ser tudo, inclusive o primeiro presidente negro dos EUA. E as constantes ausências dela deram a ele um jeito contido e autossuficiente, na linha "não preciso de muita gente em torno". As pessoas reclamam muito dele por causa disso, os doadores de campanha, os políticos. Por que ele não faz amigos no Congresso ou entre líderes estrangeiros? Por que não convida as pessoas de Washington para jantar na Casa Branca? Porque ele não precisa de gente. Bill Clinton precisa de gente, de um constante fluxo de gente, não Obama. Isso me impressiona muito e tem a ver com o jeito como ele foi criado. Penso que ele teve de negociar seu próprio espaço nesses ambientes estranhos.

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