ATIVIDADES DE AMIGOS

    'Impressionismo': 85 (belos) motivos para ir à mostra no CCBB

    RIO - No primeiro dia da exposição "Impressionismo: Paris e a modernidade", desde terça-feira em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, profissionais de arte, donas de casa, alunos da rede pública que moram bem longe do Centro e gente que nunca tinha ido ao CCBB dividiam espaço com outros tantos visitantes de perfis bem diferentes. Na quarta, a procura foi ainda maior, e a fila chegou a 40 minutos de espera. O motivo para o CCBB ter virado o centro das atenções na cidade são as obras de Pierre-Auguste Renoir, Paul Gauguin, Henri De Toulouse-Lautrec, Edgar Degas, Claude Monet, Edouard Manet, Vincent Van Gogh, Paul Cézanne e outros artistas impressionistas e pós-impressionistas que podem ser vistas ali, até 13 de janeiro, graças a parte importante - formada por 85 peças - do acervo do Museu d'Orsay que veio de Paris pela primeira vez para a América Latina.

    - Tivemos que construir uma reserva técnica, uma sala controladíssima, algo de que nunca precisamos antes, para receber e aclimatar as obras - conta Marcelo Mendonça, gerente do CCBB Rio, que, acostumado com os hábitos do público que frequenta a instituição, insistiu para que a rotunda do prédio abrigasse uma cenografia para atender aos que fazem questão de levar fotos como lembrança de que estiveram no "d'Orsay carioca".

    Fotos em Paris

    Os painéis instalados na rotunda do CCBB recriam quatro espaços do Museu d'Orsay. A ideia é que o visitante tire uma foto cujo fundo dê a impressão de que está de fato lá na França. Mas o curioso é que o ambiente parisiense leva a assinatura de brasileiros. Além de a arquiteta Virgínia Fienga, que criou a cenografia, ser a responsável pelo novo projeto do d'Orsay, os ambientes reproduzidos são duas salas, a galeria de esculturas e o novo café do museu, reformado ano passado, que agora tem design de outros brasileiros: os irmãos Campana.

    Mostra que vale milhões

    Para se ter uma ideia do tamanho da empreitada, o projeto começou há dois anos, custou R$ 11 milhões, está sendo anunciado como o maior da história do CCBB e envolve requintes - além de cuidados cirúrgicos com temperatura, iluminação e manuseio - como o transporte das telas em dias (e voos) diferentes, para minimizar o risco de perda, caso algo dê errado na operação de logística, cujos detalhes são mantidos em sigilo.

    Fora as pessoas que são mobilizados em operações de transporte, por exemplo, a equipe diretamente envolvida na montagem tem 200 profissionais trabalhando há seis meses e inclui engenheiros, restauradores e conservadores, entre franceses e brasileiros.

    Ao brasileiro, com carinho

    A exposição foi feita sob medida para o CCBB. Marcelo Mendonça acredita que a diversidade de público que frequenta o centro cultural, considerado a 16ª instituição do ramo mais visitada em todo o mundo, contribuiu para que o d'Orsay embarcasse no projeto.

    - Levando em conta a história do Brasil, pensamos no que interessa ao país - diz o diretor do Museu d'Orsay, Guy Cogeval, que ficou impressionado com as filas de mais de quatro horas que o público enfrentou para ver a mostra em São Paulo.

    Lá, os impressionistas foram vistos por 320 mil pessoas. Além de Cogeval, Caroline Mathieu, conservadora-chefe do d'Orsay, e Pablo Jiménez Burillo, diretor geral do Instituto de Cultura da Fundación Mapfre, assinam a curadoria da mostra.

    Ordem e progresso

    A mostra é dividida em seis módulos. Entre os primeiros quadros, sobre as mudanças trazidas pelo progresso à capital francesa, há o famoso Monet, de 1877, que retrata a estação de trem Saint-Lazare. Outra estação ferroviária, pintada por Henri Ottmann em 1903, dá destaque aos trilhos na composição do quadro "A estação Luxembourg em Bruxelas".

    Na mesma sala, outro Monet representa "As Tuileries" (1875). O lugar, que leva esse nome porque abrigava fábricas de telhas (em francês, tuiles), foi escolhido por Catarina de Médicis em 1564 para a construção de um palácio, o Palais des Tuileries, com o amplo jardim às margens do Rio Sena.

    A evolução da sociedade e seu impacto sobre os moradores da cidade ao longo dos anos aparecem na tela "O cais Saint-Michel e Notre Dame", de 1901, pintada por Maximilien Luce. A diversidade da população, com burgueses, criadas e outros representantes das camadas sociais parisienses, surge junto ao ritmo de vida, já acelerado, dos passantes que vão e vêm. As pessoas passam, mas, ao fundo, a Catedral de Notre-Dame permanece como testemunha das mudanças que transformaram a cidade através dos séculos.

    Patrimônio francês

    O segundo módulo tem algumas das obras mais importantes da exposição, como "O tocador de pífaro" (1866), de Manet, que foi rejeitado pelo Salão de Artes de Paris em sua época - quando foi defendido pelo escritor francês Émile Zola - e hoje é destacado pelo presidente do Museu d'Orsay como um dos maiores patrimônios da França.

    Intimidade

    Vida pública e vida íntima, personagens da cidade e da noite dividem esse espaço da mostra. Até o filho de Pierre-Auguste Renoir - Jean, que se tornaria um importante cineasta, diretor de clássicos como "A grande ilusão" e "A regra do jogo" - aparece, ainda bebê, em pintura feita pelo pai, ao lado da criada da família, Gabrielle. O pintor tem na mesma sala um quadro que está entre os mais significativos do movimento, "Moças ao piano" (1892). Mais tarde, lembra o presidente do d'Orsay, Renoir voltaria ao tema, com "Yvonne e Christine Lerolle ao piano", que faz parte do acervo do Museu L'Orangerie, do qual Guy Cogeval também é presidente.

    História da vida privada

    Dividindo a mesma parede com "Moças ao piano", o pontilhismo é representado por "Casal na rua" (1887), de Charles Angrand.

    Em meio a retratos do cotidiano de cada um, não são poucos os fatos históricos que se escondem - ou se revelam - por trás dos quadros. Em "Ramo de macieira em flor" (1872), o motivo pintado por Gustave Courbet é resultado da prisão do artista, quando ele paticipou da Comuna de Paris, em 1871. Na cadeia, podia ao menos pintar flores e frutas que a irmã era autorizada a lhe entregar.

    Mundano e literário

    Entre os personagens da vida noturna da cidade, que foram eternizados por Toulouse-Lautrec, um chama a atenção pela expressividade do olhar: a figura de "Mulher com boá preto" (1892). Outros olhos dignos de nota são os do autorretrato de Cézanne, em "Retrato do artista com fundo rosa" (1875). Ou melhor, bem mais do que digno de nota: o poeta alemão Rainer Maria Rilke escreveu, num texto importante que diz respeito a arte e literatura, sobre o impacto que o trabalho do pintor exerceu sobre ele. Esses textos de Rilke foram publicados no livro "Cartas sobre Cézanne".

    Pindaíba

    Mais uma característica que sobressai a essa altura da exposição é o recurso que aqueles que, depois, seriam reconhecidos como mestres da pintura usavam: sem dinheiro para pagar modelos, recorriam ao autorretrato. Ou posavam uns para os outros.

    Como nas fotos

    Na sala seguinte, menor, uma das dicas é notar como Degas e Manet pintaram imagens que parecem instantâneos que registraram um momento fugaz. Enquanto o movimento das bailarinas é captado pelo primeiro em "Dançarinas subindo uma escada" (1886-1890), o segundo, em "A garçonete de bocks" (1878-1879), congela a figura de uma mulher, registrando, como que furtivamente, apenas parte da imagem da artista que se apresenta no palco ao fundo.

    O início, o fim e o meio

    No salão que se segue, "Regatas em Argenteuil", de Monet, data de 1872, mesma época do quadro do pintor que deu origem ao nome do Impressionismo: "Impressão, Sol nascente".

    Na parede oposta, vale observar, em "Colheita" (1851), a luz, os tons e as pinceladas rápidas de Charles-François Daubigny, pintor admirado por Van Gogh.

    Na sequência, há desde um quadro que Renoir pintou na Argélia, "Paisagem argelina, o barranco da mulher selvagem" (1881), a um exemplar das ninfeias de Monet, "O lago das ninfeias, harmonia verde" (1899). O tema a que Claude Monet se dedicou a pintar em Giverny há muito caiu no gosto dos cariocas. A exposição que o Museu de Belas Artes fez em 1997, com ninfeias do pintor, atraiu 423 mil visitantes.

    Destaque

    De volta para o presente, no CCBB, as duas últimas salas do circuito são citadas como destaques da exposição "Impressionismo: Paris e a modernidade" pelo presidente do Museu d'Orsay.

    Ali, em obras que retratam terras fora da capital francesa, está o único Van Gogh da mostra, "O salão de dança de Arles". O espaço serve para se deter sobre uma das amizades mais importantes da história das artes: a relação entre Vincent Van Gogh e Paul Gauguin.

    A ideia era que os dois vivessem juntos no Sul da França, como numa espécie de "sociedade alternativa", idílica. Mas, depois de desentendimentos, Gauguin partiu, e Van Gogh perpetrou a automutilação, cortando sua orelha, que imprimiu um tom de desespero ao episódio.

    Na parede, um bom exemplo dessa relação é "Les Alyscamps", em que Paul Gauguin pintou troncos e árvores sem economia de cores, com direito a um laranja vibrante. O tema representado por trás da pintura também já foi retratado por Van Gogh, porém, com um tom melancólico.

    Além do destaque das cores, as figuras de Gauguin - que, quando pintou "Camponesas bretãs", havia estado no Taiti - têm feições asiáticas.

    Na reta final da exposição, em "O Palácio dos papas" (1900), de Paul Signac, ressalta-se o neoimpressionismo. Pontos de cor lado a lado compõem uma atmosfera em que a luz e os tons ganham papel singular.

    Viradão impressionista

    O batalhão responsável por zelar pela integridade das obras diz que um dos desafios é equilibrar a temperatura com o fluxo de pessoas, já que o calor humano do dia dá lugar ao vazio absoluto à noite. Mas, este fim de semana, o problema é menor: o CCBB abre as portas amanhã às 9h e só fecha às 21h de domingo. É o Viradão Impressionista, para colocar ainda mais Monet, Renoir e cia. na ordem do dia - e da noite também.

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