RIO - 'Quero no seco. Com raiva decreto o fim do excesso." Ao lançar o seu manifesto do Teatro Essencial, em 1987, Denise Stoklos não imaginava o quão árdua seria a sua solitária batalha. À época, a artista denunciava a "mentira" da pirotecnia, urgia por uma "organização mais limpa da comunicação" e instaurava um teatro centrado no ator: voz, corpo e pensamento bastariam. Mas tudo parecia conspirar contra. Perseguia uma singularidade autoral como resultante de uma interiorização, enquanto tudo ao redor erguia-se para desafiar a sua crença na "autossuficiência genuína do ser humano", como dizia. Seu trabalho, extremamente denso, profundamente autoral, pode ser conferido no ciclo de leituras "As palavras gestuais de Denise Stoklos", desde quinta-feira, e até o próximo domingo, no Espaço Sesc.
A retrospectiva foi iniciada com "Casa", apresentado pela primeira vez em 1990 - ano em que o cientista inglês Tim Berners-Lee anunciava a utilização em escala global da world wide web (www). O mundo começava a mudar. Mas no palco do La Mama, em Nova York, Denise conduzia o espectador a observar uma pessoa vivendo dentro de uma casa - um ato profético em direção aos reality shows? -, numa solitária rotina em busca de sua identidade. Passados 22 anos, Denise está só, no camarim, e horas antes de entrar em cena para ler este mesmo texto reflete sobre a crescente polarização entre a sua busca pela essência frente à descarga de informações oferecida ao mundo pela internet.
- Outro dia um amigo disse só usa a internet para pornografia. Quando quer ver uma mulher bunduda ele vai lá e acessa. E é para isso que ela serve. De resto não tem significado - provoca Denise, num tom entre o sério e o sarcástico. - É um ambiente tão anônimo, que serve tanto à violência, que perdeu o senso de discussão, de diálogo. É o excesso do excesso, e o que resulta disso é o nada.
Declaração que ganha coro, por exemplo, no pensamento de Umberto Eco: "A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia", disse o pensador italiano em recente entrevista. Ícone máximo do nosso tempo, a internet cresceu em paralelo ao Teatro Essencial de Denise, e desde então não só atuou como instrumento central na ampliação insuspeita dos tentáculos da Era da Informação, como contribuiu para subvertê-la e consagrar, em seu lugar, o que a artista já vislumbrava como uma era de excessos. E se esta não para de ganhar um corpo disforme, por outro lado não só reforça a urgência do manifesto de Stoklos, como impele e reatualiza suas buscas estéticas.
- O meu teatro nasceu em busca do não excesso, e isso continua valendo ainda mais - diz Denise. - E quanto mais esse mundo avança, vejo que o teatro tem cada vez menos importância, não vale a pena, porque ele não defende interesses de ninguém. O teatro é completamente autônomo. Então como é que ele vai sobreviver numa sociedade consumista, se ele não é mercadoria? Vai servir para quê? É uma forma de arte que não vende, que trata de ideias, e ideias não servem para porra nenhuma. Ao mesmo tempo, é uma das poucas atividades que ainda resguardam o valor de uma livre escolha.
Palavras gestuais
Denise vê o teatro como sinônimo de termos como "opção", "desobediência" e "liberação":
- Eu assisto e faço teatro porque eu quero. Sou eu que escolhi, ninguém ou nada nesse mundo está pedindo que eu faça isso. Nenhum banco, nenhum candidato - diz. - E isso acontece porque nesse ritual de encontro entre pessoas se discutem questões fundamentais da natureza humana, mas que não servem para nada. A não ser para cada indivíduo em seu crescimento pessoal, existencial e espiritual, palavras que não têm serventia numa sociedade em que um ser deve servir ao outro, onde algo só interessa quando serve para apoderar-se do outro, enquanto o teatro não é feito para se apoderar, mas para libertar o outro. E esse é o teatro para o qual foram feitos os meus espetáculos.
Em 44 anos de carreira, Denise Stoklos produziu, escreveu, dirigiu, coreografou e atuou em 27 peças, que percorreram 31 países. Hoje, às 21h, ela faz uma leitura de "Des-Medeia". Na quinta-feira, dia 18, "Desobediência civil", espetáculo de 1997 inspirado na obra homônima de Henry David Thoreau, cujo pensamento se entrelaça à "Pedagogia da autonomia", do brasileiro Paulo Freire, apontando a possibilidade de o humano reconstruir o mundo a partir de suas próprias mãos. Em seguida, no dia 19, "Vozes dissonantes", em que Denise emprega uma viagem histórica ao país e dá voz a brasileiros célebres que se levantaram contra a tradição e a história oficial. Em "Calendário da pedra", espetáculo de 2001 que será lido no dia 20, ela contesta uma sociedade cujos valores dependem de critérios como utilidade e rendimentos. E, finalmente, no dia 21, ela encerra a série com a sua mais recente criação, "Preferiria não?". Com exceção desta última, que será encenada, todas serão lidas, ressaltando o seu trabalho com a voz, mas sem deixar de evidenciar o gestual:
- O projeto se chama Palavras Gestuais porque eu lerei também as rubricas, que indicam ações. Então a voz será um um instrumento pelo qual o espectador poderá visualizar o gesto. O gesto não está ausente, porque no meu teatro há o gesto dentro da palavra, que pode ser percebido no tempo e na forma como algo é dito.
Em "Des-Medeia", Denise subverte o mito e tece uma analogia com a situação do país.
- É um mito que se desfaz, que se des-Medeia, em que a Medeia é a alma brasileira e Jasão é o Estado que abandona essa alma - diz.
Em todos os espetáculos, encontram-se os pilares de um teatro que descarta os pormenores cotidianos e se atém a temas permanentes e universais.
- Faço teatro para que ele atinja a parte essencial do espectador, para que possamos refletir sobre nossas questões, a eterna luta por amor e por liberdade. É isso que está presente no Teatro Essencial.

