SÃO PAULO - Venta forte, e faz frio (16 graus Celsius) no centro de São Paulo. A assessora de imprensa e uma das secretárias de Cauby Peixoto desce do carro usando um casacão preto que nem de longe tira o brilho do conjunto perolado de colete e gravata presa num broche de pedra turmalina. Apoiado por ela, Cauby Peixoto desembarca em frente ao Bar Brahma, na esquina das avenidas Ipiranga e São João, onde há dez anos bate ponto. Toda segunda-feira, como a que a Revista O GLOBO acompanhou, recentemente. Aos 81 anos, Cauby dá passos curtos até alcançar a porta dos fundos do bar, por onde acessa diretamente seu camarim, um espaço improvisado, decorado por uma mesa redonda, duas cadeiras e um baú onde os proprietários guardam objetos de cena de outros shows.
Cauby senta-se com a ajuda de Nancy, sua assessora há mais de dez anos. Na verdade, ela é uma ex-fã que conheceu a voz do ídolo ainda aos 7 anos de idade, e que décadas depois frequentou um show atrás do outro só para lhe entregar uma rosa amarela. Resultado: largou a família no Rio para viver com o cantor num amplo apartamento em Higienópolis.
- As fãs não gostam muito de saber que moro lá - diz ela, num tom confessional.
Uma garçonete chega ao camarim para lhe servir um prato de salada de fruta e outro com queijos e presunto cru. Ele não toca na comida. Água, sem gelo. Cauby não escuta com facilidade. Pensa, mais de duas vezes, antes de responder a qualquer pergunta. Simpático, olha de soslaio para Nancy como se pedisse uma interpretação da entrevista. Espontaneamente, ele gosta mesmo é de falar de sua potente voz, sempre impostada. Diz que não tem problemas para comentar sua vida particular, mas assim que Nancy lhe explica até onde o repórter quer chegar, ele balança o rosto de um lado para o outro. É o comando para mudar de assunto. Nada de falar sobre intimidades.
Reservado, Cauby diz que não tem inimigos, mas que também não coleciona amigos próximos. Sai de casa só para fazer shows. Faz dezenas de festas de bodas de ouro, mas também foi convidado para o début de 15 anos de uma garota no interior de São Paulo. Ela gostou?
- Foi o pai dela que me contratou - diz ele, sorrindo, enquanto a assessora lança pitadas de açúcar sobre fatias de abacaxi.
- Ele não gosta de nada amargo - conta.
Cauby é do tipo que tem papas na língua. Diz que gosta de tudo e de todos. Com certo esforço, arranca-se dele impressões peculiares sobre Madonna ("Só faz sucesso porque mexe as pernas pra lá e pra cá, mas não tem voz nenhuma"). Avançamos pelo cardápio nacional. Gosta de axé? Gosta de Ivete?
- Desculpa, mas nunca ouvi nada dela - diz, aparentemente sincero, num tom que foge à costumeira ironia da classe artística.
Faltam minutos para Cauby entrar em cena, já quase dez da noite. A cantora Claudete Soares vai ao camarim para um abraço, acompanhada de um rapaz de cerca de 30 anos cumprimentado por Cauby como um grande amigo. Ele mostra ao cantor um sapato que acabou de comprar, todo cheio de taxas pontiagudas prateadas. Embora no recinto teve quem pensasse que poderia fazer parte do figurino, não era um presente para Cauby.
Nancy o ajuda a vestir o paletó salmão, que combina com um dos anéis em formato de pequenas torres. Antes de seguir para o palco, responde mais algumas perguntas. Diz que não enxerga nenhum sucessor, afinal, diz ele, ninguém tem voz nesse país. Também não ouve as músicas atuais. Sequer se esforça para lembrar de alguém da nova geração que tenha lhe despertado interesse, e logo desdenha de ritmos que fogem às baladas românticas.
- Acredita que já me pediram para cantar forró aqui no show? - diz.
Ele se negou. Nancy, no entanto, logo entrega que ele tem um gosto por trilhas de novelas.
- Teve um dia que o show acabou e ele seguiu para o camarim cantando o refrão: "Só no sapatinho ôô..."
A rotina de Cauby é ficar em casa. Algumas vezes, passeia pelo cômodo onde estão guardadas centenas de prêmios que conquistou em mais de 60 anos de carreira. Inclusive o que recebeu quando foi nomeado presidente de honra do Grammy Latino, ano passado, o que para ele foi uma espécie de coroação do trabalho que desenvolveu nos Estados Unidos, onde fez turnês nos anos 1950 e 1960, com apelido de Ron Coby. Na época, foi apontado pelas revistas "Time" e "Life" como o Elvis Presley brasileiro. De lá para cá, gravou sucessos, causou histeria entre fãs, fez cinema, foi empresário da noite. Chegou a se dedicar à lendária boate carioca Drink, como administrador, interrompendo a carreira por algum tempo. Caetano, Chico, Erasmo e Roberto chegaram a compor músicas para Cauby, que fez duetos com Angela Maria e passou a ser homenageado pela indústria fonográfica. Com o tempo, longe de Niterói, onde nasceu, passou a ter uma vida mais reclusa.
- Muitas vezes a gente chama para sair, mas ele prefere ficar em casa, vendo TV - conta Claudete, animada, entre uma piada e outra.
Cauby não perde um capítulo de "Avenida Brasil". Ele grava os capítulos de segunda-feira, quando faz show em São Paulo. Sem lembrar os nomes dos outros personagens, diz que é fã incondicional de Carminha. Ou melhor:
- Adoro a Adriana Esteves. É maravilhosa.
Com ajuda da entourage, Cauby vai seguindo para o palco. O artista Luiz Maurício, caracterizado de Cauby, é quem o chama. O público, que ocupa cerca de 60% da casa, não esconde a euforia. Muitos levantam, sacam celulares, e dá-lhe fotos. Cauby manda beijos, sorri, enquanto segue a passos curtinhos amparado por Val, seu segurança há mais de dez anos, até vencer os dois degraus do palco. Ele senta-se numa cadeira de escritório. Quase não levanta durante uma hora de espetáculo. Também lê boa parte das letras. A plateia acompanha a apresentação quase em silêncio. Muitos cochicham toda vez que o acesso de tosse o impede de continuar uma música.
Ele, então, saca duas canções que não podem faltar no repertório: "Bastidores" ("Cantei, cantei...") e "Conceição". O público acompanha, até que ele envereda pelas internacionais, menos por "New York, New York", que ficou de fora. "Unchained Melody", tema do filme "Ghost - Do outro lado da vida", ganha roupagem curiosa.
Gustavo Benedetti, de 18 anos, sobrinho da assessora, o acompanha no saxofone.
- Ele me viu ensaiando em casa e me chamou para fazer show com ele. É um aprendizado - diz o garoto, fã de jazz e pouco sintonizado com "as músicas de hoje".
Cauby desce do palco. Os fãs parecem comedidos diante de sua fragilidade. A maioria acena à distância, mas muitos mandam beijos e outros sacam máquinas fotográficas para registrar o momento, inclusive o jovem aniversariante que pediu - e foi atendido - que Cauby cantasse para ele um "parabéns a você".
Antes de deixar o bar, novidades sobre a sua carreira: duas músicas acabam de ser incluídas no iTunes ("Unchained Melody" e "Modinha"), o disco com 12 serenatas está no forno e um filme sobre sua vida está em produção. Nancy, Val e o amigo acompanham Cauby até o carro, que o espera na esquina da Ipiranga com a São João, onde amanhã ele volta a bater ponto. Enquanto entra no banco de trás, o movimento de mulheres que trabalham no calçadão do centro de São Paulo segue um ritmo frenético, embalado pelo som de Madonna que dispara de dentro de uma das casas de show da região.

