ATIVIDADES DE AMIGOS

    Cia. Dos à Deux finca bases no Brasil

    Prestes a completar, em 2013, 15 anos de trajetória à frente da Cia. Dos À Deux, os atores e diretores André Curti e Artur Ribeiro mais uma vez estão de volta à cidade. Estabelecidos em Paris desde 1998, eles nunca deixaram de apresentar seus espetáculos por aqui, mas o retorno de agora tem propósitos mais definitivos: fincar as bases do grupo no país, com a construção de uma sede. Para isso, eles compraram um casarão no pé de Santa Teresa, iniciaram uma ampla reforma no espaço e deram partida à primeira criação inteiramente realizada no país. O resultado, após seis meses de ensaio com o ator Luis Melo, é o solo "Ausência", que estreia neste sábado, às 19h, no Sesc Ginástico.

    - A reconstrução dessa casa se deu em paralelo à construção do espetáculo - diz André.

    E Artur brinca:

    - Sei tanto da peça como de engenharia, arquitetura e obras a partir de agora.

    Criado para funcionar como moradia da dupla, sede da companhia, espaço para apresentação de espetáculos, hotel e ateliê para grupos em residência artística, o casarão só deve ficar pronto mesmo no ano que vem.

    - A ideia de criar esse espaço surgiu de uma vontade de reproduzir o modelo e a qualidade que temos em Paris aqui no Rio - diz André.

    Até lá o grupo celebra sua trajetória numa programação que irá fazê-los circular pela França em 80 apresentações de quatro peças do repertório, "Dos à deux" (1998), "Fragmentos do desejo" (2009), "Ausência" (2012) e "Irmãos de sangue", nova produção que estreia em Paris no dia 21 de março e chega ao Rio em maio.

    - Será um trabalho sobre fraternidade entre dois irmãos - adianta Artur.

    teatro gestual

    Vencedores da categoria especial do Prêmio Shell 2010, cada espetáculo da dupla é marcado por uma tema, uma palavra-impulso que dispara uma série de questões e, aos poucos, tece uma trama. Foi assim com "Dos à deux" (1998), que tratava de exclusão, "Aux pieds de la lettre" (2001), de loucura, "Saudade em terras d'água" (2005), de migração, "Fragmentos do desejo" (2009), de diferença, e com o espetáculo que chega agora à cena, "Ausência" (2012), criação referendada pela solidão. E se é fato que a solidão é a ausência de si e de tudo ao redor, não haveria melhor título para a montagem, que, não à toa, se forja como um solo.

    - A solidão e a questão da ausência estão na origem da peça - diz Artur. - Ela foi pensada para o André atuar sozinho e para eu dirigir, sozinho. Sempre fizemos tudo em dupla, mas esse solo nasceu do ímpeto de nos separarmos fisicamente, de estarmos sós, sentindo essa ausência um do outro. Depois, o Sérgio (Saboya, produtor) apresentou o projeto ao Luis (Melo), que se apaixonou.

    Juntos, André e Artur se ausentaram da cena e deixaram a solidão para Melo, que não só estreia seu primeiro monólogo como faz a sua primeira incursão na linguagem de teatro gestual, que baliza a escritura cênica da dupla.

    - Desde que os vi pela primeira vez fiquei impressionado com a maneira como eles contam histórias sem palavras. Eles criam uma poesia gestual que me encanta - diz o ator.

    Melo teve de abdicar do verbo e mergulhar na linguagem do grupo, uma miscelânea de técnicas diversas como o decroux, baseado na mímica corporal dramática, entre outras.

    - Eles desenvolveram algo completamente novo - diz o ator. - E me ajudaram a crescer a partir das minhas dificuldades, daquilo que eu não sabia. Trabalhar no conforto, com a rede de segurança, não leva o ator a lugar algum.

    Em cena, Melo vive um homem em estado de desespero e de penúria, isolado num apartamento localizado na Nova York de 2036 - ameaçada pela apocalíptica chegada de um asteroide que dará fim ao planeta. Do lado de fora há caos, radioatividade e barbárie. Do lado de dentro, há a ausência de tudo: água, comida e contato humano. Seu único companheiro é um peixe vermelho isolado num aquário, além das ratazanas que ele caça num ritual que tem como objetivo alimentar seu animal de estimação, dar vazão a seu instinto predatório e diverti-lo em experiências científicas. O confinamento e a escassez, porém, o exasperam e o levam a um dilema: "Devo ou não beber a água do aquário?" Matar a sede e sobreviver é, também, exterminar o ser vivo que o acompanha e lhe permite projetar afeto. Mas, independentemente da decisão, o instinto de sobrevivência não domina a cena. Ele divide espaço com rompantes de invenção. O homem não busca apenas alimento e água. Existir não basta. A necessidade do outro é imperativa. E a criação, inevitável. Assim, ele materializa uma boneca de lata. E com ela se comunica através de um funil, usado para escoar seu impulso afetivo numa verborrágica declaração de amor - únicas palavras usadas em cena.

    - Nossos personagens estão sempre em desespero interior - diz Artur. - Mas para tentar sobreviver, eles precisam se reinventar.

    Para que isso aconteça, ele usa tudo o que tem a seu dispor, criando e recriando objetos.

    - O objeto representa o nosso mundo interior, conta quem nós somos - diz Artur.

    Tanto na cena como no discurso da dupla, o elemento lúdico equilibra a criação e impede que obra e espectador sejam dragados por um buraco negro irreversível.

    - Criamos uma zona suspensa, entre a iminência e a consumação da tragédia - diz Artur.

    E André completa:

    - O desespero é apresentado de modo onírico. Unimos poesia e dramaticidade.

    E a cola se dá por meio dos movimentos de um corpo que atua como ponte - entre a desesperança e a iluminação poética - e também como suporte de uma dramaturgia encarnada, que tece e revela a história a partir de cada gesto. O corpo, no entanto, não é apenas uma máquina empenhada na expressão de recursos físicos, mas em comunicar, contar e, assim, transmutar a fala-verbo numa ação muda, mas impregnada de signos narrativos. Por trás de cada movimento há um sentimento, uma emoção e, também, um pensamento em ação, materializado na carne, na pele e nos olhos do ator.

    - Criamos um vocabulário que possibilita ao corpo representar o pensamento humano. Não é copiar o real, mimetizar o cotidiano, mas representar o imaginário - diz Artur.

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