Bruce Gomlevsky é ator, produtor e diretor da Cia. Teatro Esplendor. E quando atua em cada um desses campos, sua relação com o teatro se altera. Agora, ele une as três pontas, com a estreia da peça "O homem travesseiro", neste sábado, às 20h, na Casa de Cultura Laura Alvim. Escrita pelo irlandês Martin McDonagh e vencedora dos prêmios Laurence Olivier (2004) e Tony (2005), a obra se encaixa na pesquisa temática e estética que Gomlevsky vem, aos poucos, burilando à frente da sua companhia. Com ela, já levou à cena as peças "Festa de família" (2010), de Thomas Vinterberg, "Volta ao lar" (2012), de Harold Pinter, e prepara para o ano que vem "Funeral", também de Vinterberg. Em comum com a nova criação, todas elas tratam de relações familiares em que a questão do abuso é tema central.
- Me dei conta de que estou criando uma tetralogia do abuso - pontua o ator. - Mas não foi algo estabelecido a priori. Depois de montar e escolher esses textos, percebi que todos tocavam nesse assunto. O que une os trabalhos da companhia são a temática e a estética.
Sobre esta, Gomlevsky se atém, primordialmente, ao trabalho expressivo do ator, à construção da personagem para uma atuação realista, e não à composição cênica.
- Tô cansado de ver teatro de diretor que acha que está na Casa Cor - dispara. - A forma e o estilo surgem a partir do que eu descubro. Não é algo definido, e deve ser colocado a serviço de cada peça. Penso em Kubrick, que a cada filme apresenta uma estética.
Prestes a completar 20 anos de carreira, Gomlevsky já trabalhou com Gerald Thomas, se aventurou em musicais ("Renato Russo") e clássicos ("Cyrano de Bergerac"), mas, hoje, sente a necessidade de retomar a descoberta "do personagem stanislavskiano".
- Já fiz teatro experimental, pós-dramático, mas sinto uma necessidade de retornar ao que seria o figurativismo na pintura - diz. - Tem gente que acha isso ultrapassado. Mas vejo que certos encenadores tiraram do ator a sua condição de criador de personagens. E essa peça é um prato cheio para os que gostam de construir. São personagens ricos, multifacetados, profundos.
Localizada num país fictício controlado por um regime totalitário, a peça começa numa sala de interrogações, onde um homem é instado a responder aos questionamentos de dois policiais. O homem, chamado Katurian (Gomlevsky), é um escritor de histórias de horror. Tupolski (Tonico Pereira) e Ariel (Miguel Thiré) são os detetives que o pressionam a dizer a verdade. A verdade que eles querem é tudo o que Katurian não tem a oferecer. Autor de contos bizarros, suas narrativas guardam semelhanças com uma série de assassinatos envolvendo crianças que passam a acontecer. Em meio ao interrogatório, o escritor descobre que seu irmão doente mental, Michal (Ricardo Blat), além de ser o autor dos crimes, também o incriminou. Na iminência de ser preso, ele luta pela sobrevivência e pela liberdade - de si e também de sua expressividade artística.
- Acho que a criação, por mais bizarra e incômoda que seja, deve ser livre. Não deve haver censura ao artista.
O dilema do personagem dispara reflexões sobre crueldade das relações humanas, abuso, autoridade, intolerância e sobre o poder de influência da obra de arte.
- O escritor lia suas histórias para o irmão, e então ele depara com o resultado disso - diz. - É uma situação forte. Ela me faz pensar em como a arte pode levar alguém a fazer algo positivo ou negativo, como entrar num cinema e matar pessoas. Vivemos uma época violenta e também de pasteurização da arte. O teatro, em muitos casos, virou um lugar anestésico, de puro entretenimento. Eu me preocupo e quero refletir sobre isso.

