ATIVIDADES DE AMIGOS

    Aquarius se orgulha de levar iniciação à música clássica ao público

    RIO - Nos 340 espetáculos realizados pelo Projeto Aquarius nas últimas quatro décadas, a música clássica foi apresentada a um público que raramente ou nunca havia tido contato com essa forma de arte. Para alguns, ir a um dos concertos do projeto foi uma revelação. Que o diga o tenor Pedro Gattuso, hoje com 47 anos, cuja vida foi mudada pela encenação da ópera "Aida" na Quinta da Boa Vista, em 1986.

    - Eu estudava teatro na escola Dirceu de Mattos e planejava seguir carreira de ator. Fazia testes para propagandas de TV e soube que haveria provas para a ópera "Aida". Entrei nela como ator, fazendo comparsaria (figuração em que se exigem conhecimentos de atuação). Fiquei maravilhado com a grandiosidade daquela produção e comecei a me interessar por ópera naquele momento. Até então, eu só ouvia tangos argentinos, Ed Motta, coisas assim - conta Gattuso, que logo depois procurou uma professora de canto lírico e acabou abandonando as artes cênicas. - Enveredei pelo canto. Entrei no coro do Teatro Municipal em 1998 e, depois, comecei a fazer trabalhos como solista também. Acabei parando na TV, não como ator, como um dia imaginei, mas como cantor num quadro do programa "Zorra total" (da Globo), em que eu soltava a voz e quebrava um monte de vidros.

    A iniciação à música clássica é a principal bandeira do Aquarius, e há quem não perca um espetáculo, mesmo sem conseguir decorar os nomes por vezes complicados dos compositores estrangeiros que aparecem nos programas. É o caso da empregada doméstica Maria da Penha da Silva, que cuida da casa da diretora geral do projeto, Angela Azevedo. Em dias de concerto, é Angela quem trabalha para ela (e para outros milhares de espectadores).

    - Eu não teria dinheiro para ver um show assim como esses do Aquarius se tivesse que pagar. Sempre vou com meus dois filhos e levo alguns vizinhos também. Gosto de ter o prazer de ouvir uma música que não é para a minha condição social. Não é o tipo de música a que estou acostumada a ouvir, é muito melhor. Sou de Campina Grande, na Paraíba, e cresci ouvindo forró. Meu filho pega no meu pé dizendo que eu não entendo nada de música clássica, mas não preciso entender para gostar do som, dos ritmos e da beleza. Até já comprei alguns CDs num camelódromo - confessa ela, que é frequentadora assídua dos espetáculos há anos.

    'Já vi gente dançando'

    Regente mais atuante no projeto ao longo desses 40 anos, Isaac Karabtchevsky calcula que 80% do público sejam de neófitos.

    - O Aquarius foi um divisor de águas na cultura carioca, pelo seu caráter lúdico, natural, orgânico. Mesmo em obras mais sérias, como a 8ª sinfonia de Mahler, via-se isso. Em muitos concertos, já vi gente dançando. A música pop e a clássica são duas vertentes de uma mesma fonte universal. O projeto conseguiu promover a união estilística entre orquestra sinfônica e artistas como Rick Wakeman e Barão Vermelho, com o propósito de popularizar a música. É uma programação que inclui contornos estilísticos normalmente inexistentes nesse tipo de espetáculo em salas de concerto - afirma ele.

    Criar familiaridade com instrumentos de uma orquestra é um ponto fundamental. Com o desmantelamento do ensino musical nas escolas, provocado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1971, no governo militar, gerações cresceram sem um canal de acesso à linguagem de Mozart, Beethoven e congêneres. A disciplina musical, antes lecionada por profissionais da área, foi substituída por "educação artística", que englobava noções muito vagas de música, artes plásticas, teatro e dança. O ensino de música voltou ao currículo escolar por meio de uma lei de 2008, que ainda vem sendo implementada em todo o país. Para o musicólogo Luiz Paulo Sampaio, a formação de público passa pela educação, mas o acesso a concertos é igualmente importante:

    - Ensinar notação musical, um pouco de teoria, é valioso. Mas é preciso que as pessoas convivam com a linguagem da música de concerto em suas vidas. Villa-Lobos sabia que só ensinar música não formava público, que as pessoas deveriam ver concertos e ter contato com a música desde cedo, por isso organizou as grandes apresentações com corais orfeônicos. Se a música não fizer parte do ambiente cultural da sociedade, ela perde sua relevância. Até com o choro isso pode acontecer. No Museu Villa-Lobos, onde trabalho, temos concertos didáticos em que os músicos apresentam seus instrumentos. O Aquarius também desempenha um papel importante por fazer essa ponte com o público.

    Com diversas participações em concertos do Aquarius desde a década de 1970, o pianista Arthur Moreira Lima lembra outro aspecto importante do projeto que deveria se estender à educação musical:

    - O Aquarius soube usar, desde cedo, os avanços da tecnologia e conseguiu melhorias significativas no campo da amplificação sonora, já na década de 70. Na minha opinião, tanto em concertos para formação de público quanto em aulas de música, é preciso tirar proveito das tecnologias audiovisuais, para tornar a coisa mais atraente.

    O concerto de hoje não foge a essa regra e traz o atrativo de um grande painel de led onde serão projetadas imagens cenográficas.

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