RIO - No início dos anos 1970, ainda havia lugares em que leite e pão eram deixados nas portas das casas. Áurea Martins se lembra de, ao lado dos também cantores da noite Alcione e Djavan, roubar os alimentos para não gastar os trocados que tinha na bolsa. As dificuldades nunca a fizeram abandonar seu repertório favorito (refinados sambas e canções românticas) e sucumbir às ideias das gravadoras.
- Pelo fato de eu ser negra, queriam que eu só cantasse pagode - recorda.
A perseverança vem sendo recompensada nos últimos anos - ao menos em prestígio. Ela ganhou o Prêmio de Música Brasileira como melhor cantora de 2008, fruto do CD "Até sangrar"; lançou em 2010 um segundo disco pela Biscoito Fino, "De pontacabeça"; e agora, aos 72 anos, coberta por elogios de seus pares, chega a seu primeiro DVD, "Iluminante". O lançamento acontece hoje, às 19h30m, em show no Teatro Rival.
Parceria do Canal Brasil com a Biscoito Fino, o projeto (também em CD) conta com Chico Buarque fazendo duo em "Maninha", narração de Fernanda Montenegro e produção de Hermínio Bello de Carvalho, o mesmo responsável pelos dois discos anteriores.
- Nunca fui pesquisador, sou um escarafunchador de coisas, alguém que nasceu pelo menos com uma qualidade: a de prestar atenção - diz Hermínio. - Por isso me enterneço com a trajetória de Áurea, que tinha em seu séquito de admiradores duas mestras do canto brasileiro, Elizeth Cardoso e Zezé Gonzaga, além de Jamelão. Mas que sacrifício tirá-la dessa invisibilidade que ainda não nos permitiu, por exemplo, vê-la em programas de televisão ou ouvi-la executada nas rádios! Entretanto, pelo menos no meio musical, é reverenciada. Hoje sabe-se um pouco de sua existência. Esse "Iluminante" faz prova das reverências que recebe.
A maioria do repertório é formada por composições de Hermínio. Parcerias com Sueli Costa, Paulo Valdez, Moacyr Luz, Vidal Assis, Lucas Porto e Fernando Temporão, algumas inéditas. Na parte final há canções mais conhecidas, importantes na trajetória de Áurea. "Janelas abertas" (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), por exemplo, ela cantou em Paris, em 1998. "Ilusão à toa" (Johnny Alf) e "Pensando em ti" (Herivelto Martins/David Nasser) remetem à sua militância nas boates.
- Tudo de bom que eu vivi na música foi graças a ser cantora da noite. O único problema foram os cigarros, pois as pessoas fumavam na minha cara enquanto eu cantava. Anos e anos engolindo fumaça - lamenta ela.
Nem assim a voz deixou de encantar intérpretes e instrumentistas de várias gerações. Emílio Santiago, seu amigo de 40 anos e até hoje companheiro em alguns shows, ressalta que ela sempre foi "fiel a seu sentimento musical".
- Não temos no Brasil muitas cantoras do porte de Áurea, com essa bagagem e essa voz única. É rara, temos que cuidar muito bem dela - afirma ele.
Com a revitalização da Lapa, a carioca de Campo Grande, nascida Áldima Pereira dos Santos (foi o ator e radialista Paulo Gracindo quem propôs o nome artístico), tornou-se a decana das jovens cantoras em atividade no bairro boêmio. Influenciou Ana Costa, Nilze Carvalho, Mariana Bernardes e outras, sobretudo Verônica Ferriani, a paulista com quem dividiu o palco do Carioca da Gema por um ano e meio.
- Ela foi minha grande mestra. No palco, parece que tem 50 anos a menos - diz a artista de 34 anos.

