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    Fred Perry: gênio das quadras e ícone punk

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    Poucos mundos são mais opostos que a tradição bem-comportada de Wimbledon e o empurra-empurra de um pub com uma multidão embalada pelo punk ou o ska. No entanto, ainda que de formas diferentes, Fred Perry influenciou ambos. Mais do que um mestre com as raquetes, o último grande campeão do tênis britânico transformou-se em referência cultural graças à decisão de, nos idos de 1952, aceitar a proposta de emprestar seu nome a uma linha de material esportivo. Hoje, a marca é conhecida ao redor do mundo e é um símbolo do cool britânico, com um festival de variações da sempre icônica camisa polo com o símbolo de uma coroa de louros. É bastante possível que muitos clientes da grife sequer saibam da ligação com as quadras de grama do All England Club, palco do mais tradicional e antigo torneio da história moderna do tênis.

    Fred Perry também foi diretamente um senhor personagem fora das quadras. A começar por desafiar a rigidez da hierarquia social britânica. Muito antes de um certo quarteto de cabeludos da cidade de Liverpool ser condecorado em pleno Palácio de Buckingham, Perry saltou barreiras sociais para se transformar num queridinho do establishment britânico e num habitué dos círculos de badalação de Hollywood. Suas incursões incluíram um affair com a diva alemã das telas Marlene Dietrich. Nada mal para um filho de operários nascido em Stockport, no norte industrial inglês e cuja rotina braçal nada em comum tinha com o elitismo de Wimbledon.

    O berço humilde certamente não escancarou as portas do mundo do tênis para Perry, especialmente porque seu pai,Samuel, era um político e ativista do Partido Trabalhista, uma legenda que em 1934, quando Fred ganhou o primeiro de seus três títulos em Wimbledon, andava de braços fortemente cruzados com o socialismo e tinha conseguido ocupar o poder no Reino Unido por apenas três anos desde sua fundação, em 1895.

    Nenhuma surpresa que o tenista encontrasse uma sucessão de narizes torcidos, ao ponto de os organizadores do torneio de 1934 terem ignorado o fato de Perry ter então se tornado o primeiro campeão britânico em 25 anos. Preferiam consolar o derrotado na final daquele ano, o australiano Jack Crawford. ''Foi um desprezo humilhante. Os organizadores sequer entregaram a Fred a gravata com que os vencedores de Wimbledon costumavam ser presenteados. Era uma afronta para a elite ver um nortista desfilando pelo All England Club'', conta o jornalista Jim Henderson, autor de uma biografia do tenista, lançada em 2009, ano de seu centenário de nascimento.

    A recepção gélida certamente ajudou a moldar o estilo sarcástico de Fred Perry em quadra.  Golpes precisos eram acompanhados de observações irônicas aos adversários, como elogios feitos com uma imitação do sotaque aristocrático sulista.  O público, porém, adorava vê-lo em ação e Perry se transformou num anti-herói. Uma de suas vítimas prediletas era o alemão e filho de nobres Gottfried Von Cramm, batido por em duas finais de Wimbledon e uma de Roland Garros. ''Ele levava Von Cramm à loucura com a guerra psicológica'', conta Henderson.

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    O britânico tampouco fez muitos amigos quando, em 1937, decidiu se tornar profissional, algo que era visto como uma ofensa moral pela sociedade da época.  Juntou-se a uma galeria de jogadores estigmatizados pelo mundo do tênis até o fim do amadorismo, em 1968. Excluído dos grandes torneios, que na época eram restritos aos tenistas amadores, Perry precisou jogar um festival de partidas de exibição nos dois lados do Atlântico para não depender da ajuda financeira do pai. Foi quando aceitou a proposta de Tibby Wegner de emprestar seu prestígio para uma linha de camisetas polo para tenistas — curiosamente, a ideia original era usar um cachimbo como logotipo. Um plano abandonado diante da óbvia disparidade com a imagem de saúde no esporte.

    O modelo de camisa ganhou popularidade dentro das quadras graças a uma estratégia de distribuição  indiscriminada por parte de Wegner e Perry; fora delas, o pulo do gato foi o crescimento da cultura mod no Reino Unido: baratas e elegantes o suficiente para se diferenciarem das roupas normalmente trajadas pela classe trabalhadora, as camisasviraram uniforme dos jovens que nos anos 60 frequentavam a cena mais alternativa no Reino Unido. Um caso clássico de apropriação cultural do que originalmente era um símbolo ao elitismo do esporte da bolinha amarela. Logo começou a demanda por modelos mais variados que o branco original, bem como por itens diferentes, como jaquetas e suéteres. Nos anos 70, o logo era visto até em grupos de skinheads.

    Seis décadas depois de lançada, a grife já não é mais uma empreitada mambembe e tampouco ligada diretamente a Perry ou ao esporte - ele vendeu sua parte na sociedade em 1961. A marca ganhou caráter global e comercial ao ponto de já ter até lançado uma coleção desenhada pela falecida cantora Amy Winehouse, uma das celebridades mais vistas usando a marca.

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    Em 19 anos de carreira, Perry conquistou oito títulos de Grand Slam, um número que teria sido muito maior caso a regra proibindo em profissionais não estivesse em vigor durante seu auge nas quadras. Trabalhou como comentarista e foi na função que acabaria se despedindo do mundo dos vivos, em 1995, aos 85 anos, depois de sofrer uma queda em seu quarto de hotel em Melbourne, durante a cobertura do Aberto da Austrália. Depois de todo o ostracismo dos tempos de jogador, ele na época já tinha enfim recebido o reconhecimento apropriado do establishment britânico: em 1984, por exemplo, ganhou uma estátua no mesmo All England Club que tanto o esnobou, em celebração do 50º aniversário de seu primeiro título na grama sagrada de Wimbledon.

    Há quem diga que seu fantasma ainda paira sobre o torneio, a julgar pelo fato de que nenhum atleta doméstico conseguiu erguer o troféu na quadra central desde o longínquo 1936...

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