Já faz certo tempo que venho acompanhando um fenômeno muito interessante. Ele está disseminado na internet de uma tal forma que não há maneira de escapar desse tipo de gente: o fã.
As ofensas a qualquer pessoa que ouse criticar um artista nos dias de hoje já se tornaram emblemáticas do estado de emburrecimento coletivo que atingiu as novas gerações de internautas. Experimente tecer críticas e comentários a respeito do péssimo trabalho artístico de figuras como Luan Santana, Michel Teló e outros menos votados. O que você vai receber em contrapartida é uma avalanche de ofensas com a consistência de uma gelatina, como "isso é inveja", "você não sabe do que está falando", "faça melhor que ele, então" e outras infantilidades asininas.
De minha parte, acho divertidíssimo ver que tanta gente se incomoda com aquilo que escrevo aqui no Yahoo ou nas redes sociais, mas principalmente com as opiniões que emito com sinceridade em minhas participações na TV, ainda mais agora que voltei a fazer parte do júri do Programa Raul Gil.
Por isto, resolvi recuperar um texto que escrevi há alguns anos, que retrata fielmente uma realidade que dificilmente vai mudar. Por favor, leia e perceba que pouca coisa mudou de lá para cá...
Sim, é isso mesmo o que você acabou de ler aí no título deste artigo.
Antes de tudo, é preciso deixar claro: fã é todo aquele ser que chora por seu ídolo, que coleciona pastas e pastas com fotos de seu objeto de desejo, que tem seu quarto forrado de pôsteres do alvo de seu fanatismo - palavra que, não à toa, originou o termo "fan" ou "fã", dando uma 'abrasileirada' -, que chora na porta de camarim, que passa dias e dias na fila, esperando o momento de entrar no local onde acontecerá o show de seu "amor não correspondido". Ou seja, é o retrato nu e cru, despido de qualquer racionalidade, de um idiota.
Se você é daquelas pessoas que adora o seu ídolo de uma maneira equilibrada, que aprecia o seu trabalho quando o cara manda bem, mas reconhece as pisadas na bola e os vacilos, então você não é um fã, mas sim um admirador. Você simplesmente gosta da banda ou de quem quer que seja. Você não o ama, não chora por ele, não grita, não se desespera quando um pedido de autógrafo é recusado, não pensa em cortar os pulsos quando recebe a notícia que seu "amor" vai se casar com uma outra pessoa que não é você. Você não é um fã. Você não é um imbecil.
E a verdade precisa ser dita, mesmo que ela seja muito dolorida para quem está lendo este artigo neste exato momento: o artista também acha que o seu fã é um idiota.
Ele sabe que esse amor desmedido é uma bobagem, um transtorno hormonal muito comum em adolescentes, embora sejam freqüentes os casos de pessoas mais velhas se portando como bobalhões - em caso de dúvida, vá até a porta de um hotel de luxo que esteja hospedando um artista internacional e veja com seus próprios olhos.
O artista quer que você compre o disco dele e vá aos shows, que demonstre explicitamente a sua devoção comprando a camiseta da turnê, a edição especial do CD que está sendo "trabalhado" na turnê, o chaveirinho, o imã de geladeira. Todo artista no fundo, pensa "me ame, me idolatre, compre todas as bugigangas que eu soltar no mercado, mas fique longe de mim". Lamento, mas esta é a pura verdade.
O pior é que a maioria dos artistas lança discos com canções pensadas em agradar a essa massa bovina de seguidores, que salivam por qualquer coisa que seu ídolo faça. Mas há exceções.
Existem bandas, cantores e instrumentistas que, genuinamente, se engajam na tarefa de soltar discos que realmente trazem um panorama fiel do que pensam em termos de música. Os exemplos são muitos: no setor internacional, Frank Zappa, Miles Davis, Jimi Hendrix, Robert Fripp e Radiohead, entre muitos outros; aqui no Brasil, Caetano Veloso e Marisa Monte representam bem a autonomia artística que muita gente persegue, mas poucos conseguem alcançar. Você pode não gostar das canções que eles criam, mas tem que reconhecer a independência musical de cada um deles.
Pense nisto. Poucas coisas são piores que adultos trabalhando, pensando e agindo como crianças de quinze anos de idade.
Veja abaixo dois momentos de minhas inúmeras participações na TV. Veja como a minha sinceridade foi "recebida"pelos próprios artistas. No caso do Beto Jamaica, um adendo: o tal "projeto" foi desfeito algumas semanas depois deste programa...

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