Não são poucas as pessoas — incluindo o velhinho aqui — que apregoam que vivemos atualmente em um mundo em que tudo envelhece MUITO rapidamente, principalmente na música — cadê Susan Boyle, MGMT, Libertines e o Pete Doherty, Vampire Weekend, o grupo Parangolé, o drum 'n' bass e mais um monte de outras merdas que todo mundo dizia que iriam durar por muitos anos, hein?
Em contrapartida, foram lançados alguns discos no Brasil que mostram que a música do passado conseguiu atravessar incólume a barreira das décadas e permanece com o mesmo frescor de outrora. Vamos a três exemplos disto...
Foi realmente uma boa ideia da gravadora Universal em lançar Early Takes - Volume 1 separadamente de seu "pacote oficial" — originalmente, ele faz parte da edição de luxo em blu-ray do celebrado documentário George Harrison: Living in the Material World, dirigido por Martin Scorsese -, pois assim cada canção em sua versão demo pode ser analisada sem a interferência das imagens e da história de George Harrison.
As dez músicas mostram como pensava a cabeça musical do cara nos anos 70. Mesmo conduzidas ao violão e tendo a banda de apoio fornecendo apenas uma base primária, é impressionante perceber como Harrison deixava os esboços de cada canção praticamente prontos, sem a necessidade de ajustes radicais na hora de gravar em estúdio os takes definitivos, como são os casos de "My Sweet Lord" e "All the Things Must Pass".
A versão de "Let It Be Me", do compositor e cantor francês Gilbert Bécaud, e "Woman Don't You Cry for Me", que entraram no disco Thirty Three & 1/3, lançado em 1976, mostrando duas facetas distintas de Harrison: na primeira, a delicadeza harmônica e melódica que ele não conseguia abandonar; na segunda, a influência marcante do blues 'de raiz'.
"The Light That Has Lighted the World", incluída posteriormente no álbum Living in the Material World, de 1973, com Harrison sozinho ao violão, é de uma candura quase pungente, o mesmo valendo para a maravilhosa versão que Harrison fez para "Mama, You've Been on My Mind", de Bob Dylan. Que belo e singelo disco!
Todo mundo medianamente interessado na história do rock sabe que foi David Bowie quem tirou Iggy Pop literalmente da sarjeta e lhe deu a oportunidade de gravar e retomar a sua carreira depois da implosão dos Stooges. Foi em 1976 que ele resolveu 'apadrinhar' o tresloucado vocalista, levando-o ao estúdio e o auxiliando de maneira essencial para que gravasse um ótimo disco, The Idiot.
Foi Bowie também quem montou uma banda de apoio para que Iggy pudesse excursionar no ano seguinte para promover o álbum, incluindo a si mesmo como tecladista, ao lado do baixista Tony Sales, seu irmão baterista Hunt Sales — a dupla, anos mais tarde, formaria a 'cozinha rítmica' do Tin Machine, a banda que Bowie montou quando temporariamente cansou de ser um rockstar — e do guitarrista Ricky Gardiner, que tocava na banda do criador do personagem "Ziggy Stardust" na época.
Sister Midnight — Live at the Agora (ST2) retrata exatamente uma destas apresentações. A qualidade da gravação é muito boa — o áudio foi extraído diretamente da mesa de som - e mostra como tudo estava muito bem ensaiado.
Não dá para ficar indiferente às interpretações cristalinas e igualmente energéticas de "Raw Power" e "1969", mesmo que estas tenham passado longe do esporro sônico que Iggy e os Stooges faziam. Até mesmo "Search and Destroy" e "T.V. Eye", que foram tocadas em andamentos mais lentos, não perderam a sua força. O mesmo vale para a maneira galhofeira com que o vocalista e sua banda enveredaram por clássicos como "No Fun", "Dirt" e, claro, "I Wanna Be Your Dog".
Que belo registro de uma época de transformação de um artista carismático e polemicamente ofensivo como Iggy Pop.
Já em Playin' Up a Storm (ST2) temos uma boa compilação do material que o guitarrista Jimmy Page registrou nos estúdios ingleses antes de formar o Led Zeppelin, quando era um dos mais requisitados músicos de estúdio da Inglaterra nos anos 60 - seu perfeccionismo era muito apreciado pelos artistas da época, como Joe Cocker e o pessoal dos Kinks e do The Who.
Nas canções contidas aqui — também co-produzidas por Page - estão espalhadas as presenças de ilustres convidados, como o extraordinário guitarrista Albert Lee — que mais tarde se tornaria o maior nome do instrumento na country music -, o pianista Nicky Hopkins e o futuro baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones.
Certamente vai causar certa estranheza ouvir Page tocando sem distorção em pequenas pérolas como "Everything I Do is Wrong", "Burn Up", "Lonely Weekend" e "Dixie Fried", mas é justamente coisas como esta que fazem este disco ser um "biscoito fino".



